6 de jul de 2010

POEMA : ENCONTREI O SEU CÃO





Hoje encontrei seu cão.
Não, ele não foi adotado por ninguém.
 Aqui por perto, a maioria das pessoas já têm vários cães; aqueles que não têm nenhum não querem um cão.
Eu sei que você esperava que ele encontrasse um bom lar quando o deixou aqui, mas ele não encontrou.
 Quando o vi pela primeira vez, ele estava bem longe da casa mais próxima e estava sozinho, com sede, magro e mancava por causa de um machucado na pata.
Eu queria tanto ser você naquele momento em que parei na frente dele. Para ver sua cauda abanando e seus olhos brilhando ao pular nos seus braços, pois ele sabia que você o encontraria, sabia que você não esqueceria dele.
Para ver o perdão em seus olhos pelo sofrimento e pela dor por que ele havia passado em sua jornada sem fim à sua procura… Mas eu não era você.
E, apesar das minhas tentativas de convencê-lo a se aproximar, seus olhos viam um estranho. Ele não confiava em mim.
Ele não se aproximava.



Ele virou as costas e seguiu seu caminho, pois tinha certeza de que esse caminho o levaria a você.
Ele não entende que você não está procurando por ele.
Ele só sabe que você não está lá, sabe apenas que precisa te encontrar.
Isso é mais importante do que comida, água ou o estranho que pode lhe dar essas coisas.
Percebi que seria inútil tentar persuadi-lo ou segui-lo.
Eu nem sei seu nome.
 Fui para casa, enchi um balde d’ água e uma vasilha de comida e voltei para o lugar onde o havia encontrado.
 Não havia nem sinal dele, mas deixei a água e a comida debaixo da árvore onde ele havia buscado abrigo do sol e um pouco de descanso.
Veja bem, ele não é um cão selvagem.
Ao domesticá-lo, você tirou dele o instinto de sobrevivência nas ruas.
 Ele só sabe que precisa caminhar o dia todo.
Ele não sabe que o sol e o calor podem custar-lhe a vida.
Ele só sabe que precisa encontrá-lo.



Aguardei na esperança de que voltasse para buscar abrigo sob a árvore, na esperança de que a água e a comida que havia trazido fizessem com que confiasse em mim e eu pudesse levá-lo para casa, cuidar do machucado da pata, dar-lhe um canto fresco para se deitar e ajudá-lo a entender que agora você não faria mais parte de sua vida.
Ele não voltou aquela manhã e, quando a noite caiu, a água e a comida permaneciam intocadas.
Fiquei preocupada.
Você deve saber que poucas pessoas tentariam ajudar seu cão. Algumas o enxotariam, outras chamariam a carrocinha, que lhe daria o destino do qual você achou que o estava salvando, depois de dias de sofrimento sem água ou comida.
Voltei ao local antes do anoitecer.
 Não o encontrei. Na manhã seguinte, voltei e vi que a água e a comida permaneciam intactas.
Ah, se você estivesse aqui para chamar seu nome! Sua voz é tão familiar para ele.
Comecei a ir na direção que ele havia tomado ontem, sem muita esperança de encontrá-lo.
Ele estava tão desesperado para te encontrar, que seria capaz de caminhar muitos quilômetros em 24 horas.



Algumas horas mais tarde, a uma boa distância do local onde eu o havia visto pela primeira vez, finalmente encontrei seu cão.
A sede não o atormentava mais.
 Sua fome havia desaparecido e suas dores haviam passado.
 O machucado da pata não o incomodava mais.
 Agora seu cão está livre de todo esse sofrimento.
 Seu cão morreu.
Ajoelhei-me ao lado dele e amaldiçoei você por não estar aqui ontem para que eu pudesse ver o brilho, por um instante sequer, naqueles olhos vazios.
Rezei, pedindo que sua jornada o tenha levado àquele lugar que acho que você esperava que ele encontrasse.
Se você soubesse por quanta coisa ele passou para chegar lá…
E eu sofro, pois sei que, se ele acordasse agora, e se eu fosse você, seus olhos brilhariam ao reconhecê-lo, ele abanaria sua cauda, perdoando-o por tê-lo abandonado...





Autor desconhecido

 
 
 
 
 
 
 
 
 


























 

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